ㅤㅤㅤ📜Capítulo I — Uma Nova Terra ㅤㅤJá vivi em muitas terras. A primeira, onde nasci, submergiu como Atlântida. Seus remanescentes migraram para outros lugares. Algumas terras surgiram para dar lugar aos recém-chegados; outras se adaptaram aos novos habitantes e aos costumes que trouxeram consigo. ㅤㅤAgora, a terra em que vivi por tantos anos também parece definhar. Guerras entre povos tornaram tudo mais escasso e perigoso. Muitos enxergam seu estado atual e profetizam o apocalipse; outros acreditam que é apenas uma fase. Enquanto discutem o destino daquele lugar, eu navego. ㅤㅤEm meu pequeno barco, levando poucas provisões e um desejo ardente de recomeçar, enfrentei serpentes marinhas, resisti ao canto das sereias e vivi minha própria Odisseia. Foi assim que desembarquei em Ginza, a terra prometida. ㅤㅤAli descobri que não estava sozinho. Havia nativos, mas também viajantes vindos de terras distantes, todos em busca de um novo lar. Não fui o primeiro a chegar, mas tampouco serei o último. Agora minha missão é retornar às velhas terras para mostrar que ainda existe um lugar onde novas histórias podem ser escritas. ㅤㅤMeu nome é Clint Álvares Cabral, e este é apenas o começo da minha aventura nesta nova terra. https://www.youtube.com/watch?v=rOFmQa08LRw
Clinton Álvares Cabral
ㅤㅤㅤ📜 Capítulo II — O Chamado da Ilha ㅤㅤMinha missão agora era convidar meus amigos mais próximos para conhecer aquele lugar. Chamei muitos, mas poucos aceitaram embarcar nessa aventura. Aos que vieram, conduzi em meu barco. Como já conhecia o trajeto, atravessar as dificuldades do caminho não foi tão difícil. Logo, todos chegaram em segurança. ㅤㅤAssim que desembarcamos, cada um de nós recebeu um pequeno ovo de aparência incomum. Diziam que toda alma que chegava àquelas terras era presenteada com um espírito daquele lugar. Bastava paciência e cuidado para que, um dia, ele revelasse a criatura que guardava em seu interior. A minha recebeu o nome de Prairimon, uma pequena companheira que passou a caminhar ao meu lado por onde eu fosse. ㅤㅤEntre todos os meus amigos, quem mais chamou minha atenção foi minha amiga Kabila. Ela parecia ter criado uma ligação especial com aquelas terras. Enquanto eu e alguns saíamos para caçar javalis selvagens e outros cuidavam do acampamento improvisado, à noite quase sempre a encontrávamos contemplando o céu estrelado, com seu pequeno companheiro descansando ao seu lado. Havia algo naquele lugar que a encantava profundamente, como se tivesse sido escolhida para ouvir um chamado que nós ainda não conseguíamos compreender. Talvez o criador daquelas terras realmente estivesse nos observando, caminhando entre nós, diferente de tudo o que havíamos conhecido em outros mundos. ㅤㅤEntão, certa noite, decidi partir sozinho. A curiosidade falou mais alto. Queria explorar regiões ainda intocadas daquela ilha. Foi quando ouvi, ao longe, o som de tambores. O ritmo parecia me chamar, como se alguém soubesse exatamente onde eu estava. Segui aquele som sem pensar duas vezes... até perceber que já não conseguia encontrar o caminho de volta. ㅤㅤQuando o dia amanheceu, eu havia desaparecido. Meus amigos sentiram minha falta e a preocupação tomou conta do acampamento. Alguns acreditavam que eu apenas demoraria a voltar. Outros, porém, temiam que eu tivesse partido para sempre. Enquanto isso, em algum lugar desconhecido da ilha, eu havia sido capturado pelos nativos daquele lugar. ㅤㅤPrairimon, porém, permaneceu no acampamento. Todos passaram a cuidar dela na esperança de que eu voltasse um dia. Mesmo sem entender o que havia acontecido, a pequena companheira percorria o acampamento à minha procura, como se perguntasse aos outros exploradores onde eu estava e por que eu ainda não havia voltado.
Clinton Álvares Cabral
ㅤㅤㅤ📜 Capítulo III — O deus da Ilha ㅤㅤ"Prairimon passava os dias olhando para o horizonte, esperando ver meu barco retornar. Sempre que ouvia o som das ondas ou passos se aproximando do acampamento, corria até a praia cheio de esperança. Mas, todas as vezes, voltava cabisbaixo para junto dos meus amigos. Os dias se transformaram em semanas. Ainda assim, ele não desistia. Para um espírito tão pequeno, a esperança parecia maior que o próprio mundo." ㅤㅤEstava preso, amarrado a um tronco, sem conseguir mover os braços. Diante de mim, uma grande fogueira alimentava um caldeirão fumegante. Batatas, legumes e outros ingredientes eram despejados na água fervente enquanto criaturas enormes circulavam ao redor do fogo. Eram homens grandes, peludos e dotados de presas enormes. Lembravam orcs, ou algo parecido. Eram seres que eu jamais havia encontrado em toda a minha vida ou em qualquer uma das terras que conheci. Ao meu redor, espalhados pelo chão, havia ossos de criaturas que eu sequer conseguia reconhecer. Alguns, porém, eu conhecia bem demais. Ossos humanos. Aqueles seres já haviam feito outras pessoas de alimento e eu parecia ser o próximo. ㅤㅤConfesso que, naquele momento, pensei que minha história terminaria ali. Depois de tantas vidas, tantas aventuras e tantos mundos percorridos, seria uma ironia morrer dentro de um caldeirão, servido como jantar para criaturas selvagens de uma ilha que eu mal havia começado a conhecer. Que azar o meu... Enquanto isso, do outro lado da ilha, meus amigos ainda tentavam compreender o meu desaparecimento. Kabila, aquela que desde a nossa chegada havia demonstrado uma ligação diferente com aquelas terras, sentia que havia algo naquele lugar que a chamava. Ela não sabia explicar o que era, mas parecia conseguir perceber uma energia que os demais não conseguiam alcançar. Minha namorada, Prairie, e suas irmãs também haviam sentido minha falta. O acampamento já não era o mesmo sem mim. Kabila, porém, decidiu não esperar. Fechou os olhos, silenciou seus pensamentos e tentou novamente estabelecer contato com aquela força misteriosa que havia sentido desde que chegara as terras chamadas Ginza. Usando seu poder de simpatia, estendeu sua consciência para além daquilo que seus olhos podiam enxergar. Por alguns instantes, nada aconteceu. Então... ela recebeu uma resposta. Uma presença surgiu em sua mente. Antiga, poderosa e, ao mesmo tempo, estranhamente próxima. Era Agoston...O deus daquela terra, o criador do Ginza. Kabila prostrou-se diante daquela presença e, em meio à sua súplica, pediu que ele encontrasse aquele que havia desaparecido. ㅤㅤAgoston ouviu. Aquele mundo ainda estava em construção. As montanhas, as florestas, os rios e as criaturas daquela ilha ainda faziam parte de uma criação que não estava completamente terminada. Os próprios nativos pareciam escapar, algumas vezes, do controle daquele que havia criado aquelas terras. Meu desaparecimento não era apenas uma preocupação para meus amigos. Era também um problema para o próprio criador. Agoston então se voltou para aquela pequena parte de sua criação que havia saído do curso. Kabila e o deus permaneceram ligados por aquele estranho elo. Juntos, procuraram uma maneira de me encontrar. Finalmente, uma conexão telepática foi estabelecida. Kabila conseguiu sentir minha presença. Eu também senti alguma coisa. Mesmo vendado, amarrado e cercado por aquelas criaturas, percebi uma voz distante atravessar meus pensamentos. ㅤㅤㅤ"Você consegue me ouvir?" ㅤㅤMeu coração disparou. Pela primeira vez desde que havia sido capturado, percebi que talvez eu não estivesse sozinho. Mas havia um problema. Eu não conseguia enxergar absolutamente nada. Não sabia onde estava. Não sabia como havia chegado até aquele lugar e, pior ainda, não fazia ideia de como explicar a Kabila onde os nativos estavam me mantendo. O caldeirão continuava fervendo. E o jantar parecia estar quase pronto. https://www.youtube.com/watch?v=T4TVKfB_X_U